sábado, 30 de dezembro de 2017

Quando mar

O mar guarda todos os seus segredos. 
À sua mãe ela confiou todos os medos e toda virada de ano o mesmo ritual: flores ofertadas em gratidão, pedidos de paz e proteção renovados, pés que bebem água na beirinha lavando a alma, olhos que miram o horizonte sem pressa, rodando o filme do ano que finda.
Naquele 31 de dezembro, ela contou 5 conchas com os olhos, cada qual um presente, se despiu inteira, bateu cabeça pro mar e nunca mais foi vista. 
Dizem que ela finalmente encontrou sua morada. Outros dizem que a viram vagando ora nas conchas, ora num barco, no cais, nas ondas...
Desde que fez do mar sua morada, ela vive assim, livre, plena de si, refazendo cada gota que derramou pelo caminho e à cada mergulho ela renasce!

Moon. Dez. 2017.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Notas femininas 7

De pedra em pedra ela fez sua estrada. Agachou no riachinho e mirou sua alma.
A travessia mais dolorosa também foi a mais bonita.
Ela não tem mais pressa de chegar, atravessar-se é seu único destino.



Moon. Dez. 2017.

Notas femininas 6

Ela abriu a janela num impulso e pulou para dentro de si. Desde então, a vista nunca mais foi a mesma.


Moon. Dez. 2107.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A heteronormatividade é assassina!

Caro amigo, cara amiga heterossexual, família e parentes próximos.
Escrevo esta carta em mim, endereçada a vocês. Uma tentativa de que através dela, vocês consigam enxergar o que se passa em meu coração desde que me entendi lésbica, ou melhor, desde que estudiosos, curiosos e pessoas consideradas "normais" como vocês, nos denominam assim.
Não sabia o que isso significava, nem tão pouco que existia uma ilha na Grécia, cujo nome Lesbos, deu origem ao termo. Uma ilha onde mulheres livres e donas de seus corpos e desejos eram vistas de forma preconceituosa e discriminadas, por não se comportarem como moças 'recatadas e do lar', já que belas não poderiam ser. Beleza e lesbianismo nunca puderam andar de mãos dadas. Sim, preciso lhes contar isso também. Uma mulher bonita não pode ser lésbica! "Como pode aquela atriz famosa ser sapatão? Ela é tão bonita!"
Ah, descobri também que davam outro nome para pessoas "do meu tipo": sapatão. E também, gay, gobi, fancha, mulher macho, entendida... E por aí vai!
Nunca simpatizei muito com "sapatão", termo tão orgulhosamente usado pela nova geração de lésbicas. Sempre achei agressivo, talvez pela forma como era usado. Que bom que tudo gira e eu adoro a fluidez dos novos tempos...
Também nunca gostei de lésbica, achava estranho, lembra lesma, estrábica... Aff, pense aí, uma lesma estrábica? Kkk! Antes fosse estrábica a visão de quem distorce o sentimento do outro ou outra. Sim, estou lhe falando sobre sentimento, pois durante muito tempo e ainda hoje, não entendo por que associam nossa orientação sexual à pura sacanagem, suruba, pornografia, pedofilia... Nem tudo Freud explica. E como explicar o que a hipocrisia do conservadorismo patriarcal, machista e heteronormativo preconiza? A sociedade fica chocada com o amor de duas mulheres, mas é incapaz de se indignar com a violência as quais as mesmas são submetidas, diariamente.
O fato é que para além do sexo, temos sentimento como vocês. Tcharannnnn! Juro! E muito! Advinha? Somos iguaizinhas a vocês, em tudo. Aos olhos do Criador também, para quem acredita Nele e mesmo para quem não acredita. Somos da mesma matéria e energia. A ciência já provou, a medicina já comprovou e a psicologia reafirmou: não é doença! Não pega, não contamina... Fica calmo/a! Rsrs... O papo é reto e o assunto é sério. Se ironizo sobre a dor é pra que ela seja um pouco mais leve, mas não é.
Então minha conversa é de irmã para irmãos e irmãs. Não escreveria algo tão íntimo se você fosse uma pessoa estranha. Eu nem perderia tempo. Preciso me/nos salvar. Corremos risco!
Te escrevo por que espero que faça algo com isso; por que preciso me salvar e salvar alguém que pode, neste momento, estar muito perto de você, além de mim (parente, amigo, família!); por que precisamos salvar muitos que estão prestes à morrer apenas por uma orientação sexual que nunca foi opção e que são julgadxs por ela. Algumas pessoas, como eu, se matam, outras matam, outras são mortas, outras minguam... Pois é... Morremos aos poucos e todos os dias, toda vez que nos assassinam ou nos apontam, julgam, batem, escondem, humilham, abusam, violam, estupram, abandonam... Morremos sempre que nos tiram o que nos é mais sagrado: nosso direito de SER, apenas! Ser humano, bicho, bicha, homem, mulher, semente, criança, planta, ar, terra, sopro, vida...
Toda vez que não podemos expressar livremente nossos corpos, pensamentos e sentimentos, morremos. Caro amigo, amiga, família e parente, se você se sensibiliza com isso, faça alguma coisa! Deixe seu preconceito de lado, mas não se esqueça de cuidar dele.
A heteronormatividade é assassina e impiedosa. Ela não gosta de mim nem dos meus, da minha laia, da minha turma, da minha família, a que escolhi por amor. Por ela, eu nem estaria escrevendo esta carta. E afinal, eu não mereço viver e ser feliz? E afinal, você não pode simplesmente respeitar e lutar ao meu lado para que eu possa continuar viva?
E por fim, a minha vida só diz respeito à mim. Ninguém tem o direito de tirá-la ou de me adoecer em doses lentas.
Beijo, com amor.

Moon. Sem data.

Fonte: www.vermelho.org.br

domingo, 10 de dezembro de 2017

No dia que você foi embora todo o amor que te dediquei ficou, só pra me dizer que ele me pertence e que ficará guardado num lugar muito sagrado. Isso é tão bonito... Ele hoje dorme, repousado tranquilo em algum lugar que não mais reconheço, dentro de mim, por que é generoso e grandioso demais para me deixar só... 

Moon. Dez. 2017.